A Camorra na moda.

A orga­ni­za­ção, antes desprezada pelos inimi­gos, virou uma das mais poderosas do mundo ao dom­i­nar a pirataria de grandes grifes internacionais

Angelina Jolie, uma das apre­sen­ta­do­ras do Oscar de 2001, ves­tia na cer­imô­nia um impecável tern­inho de cetim branco. De pronto, a roupa da atriz virou objeto de desejo de mil­hares de espec­ta­do­ras mundo afora. Como descreve o jor­nal­ista Roberto Saviano no livro Gomorra, Angelina rece­beu o traje como corte­sia de um estilista ital­iano. A festa do Oscar, con­tinua Saviano, foi assis­tida por um cos­tureiro e estilista de nome Pasquale, que vivia na pequena Arzano, uma provín­cia de Nápoles com 38,5 mil habi­tantes.
Aco­modado no sofá da sala, Pasquale acom­pan­hava a pre­mi­ação do Oscar na com­pan­hia da esposa. Ficou atônito, des­fig­u­rado, ao ver uma cri­ação sua no corpo da atriz norte-americana. O cos­tureiro prestava serviços à Camorra, orga­ni­za­ção rad­i­cada na região de Cam­pâ­nia, cuja prin­ci­pal cidade é Nápoles. Entre suas atribuições, estava escol­her teci­dos, até os proce­dentes da China. Segundo Saviano, grifes inter­na­cionais famosas ter­ce­i­rizam parte da pro­dução para o sis­tema fab­ril con­tro­lado pelo crime camor­rista. Obvi­a­mente, os teci­dos, quando a escolha fica por conta do ter­ceiro, são con­tra­ban­dea­dos e as con­fecções escol­hi­das, clan­des­ti­nas. E mais: quando a Camorra pas­sou a uti­lizar mão-de-obra de imi­grantes ile­gais, prin­ci­pal­mente a de chi­ne­ses, Pasquale foi respon­sável por ensiná-los a cor­tar e cos­tu­rar para as ter­ce­i­rizadas têx­teis.
O tor­mento de Pasquale ao ver seu cap­ola­voro fazer a fama de outro foi tamanho a ponto de ele aban­donar o mundo camor­rista da moda. Uma recomen­dação que lhe foi feita tornou-se martírio: “Aquele mod­elo aceti­nado iria para a América”. Pasquale não agüen­tou, com­prou um cam­in­hão e virou trans­porta­dor de car­gas. Tornou-se uma das inúmeras fontes de Saviano, que em Gomorra traça um per­fil do império mon­tado por uma das maiores orga­ni­za­ções crim­i­nosas da Itália.

Lançado em abril de 2006 pela Edi­tora Mon­dadori, traduzido em 47 países e já na 27ª edição, com quase 1 mil­hão de cópias ven­di­das, Gomorra é uma obra única entre as que se pro­puseram a desven­dar a crim­i­nal­i­dade orga­ni­zada sem fron­teiras, transnacional.

Nascido em Nápoles em 1979, Saviano infiltrou-se na Camorra. O resul­tado é um retrato real­ista e cru­ento do grupo, que, segundo vários espe­cial­is­tas, suplan­tou a máfia sicil­iana em movi­men­tação finan­ceira. Talvez, de acordo com os mes­mos espe­cial­is­tas, tenha super­ado a ‘Ndrangheta cal­abresa, espe­cial­izada em negó­cios nas bol­sas de val­ores. O jor­nal­ista vive hoje com escolta poli­cial e se loco­move em carro blindado. Isso depois de uma bomba, acionável por tele­co­mando, ter sido encon­trada, casual­mente, debaixo do seu carro esta­cionado numa rua de Nápoles.

Sobre o “sucesso econômico” da Camorra nos últi­mos 15 anos, Saviano sen­ten­cia: “Os clãs camor­ris­tas não pre­cisam dos políti­cos como os gru­pos mafiosos sicil­ianos. São os políti­cos que têm neces­si­dade extrema da Camorra”. Aliás, “Sis­tema”, como é agora chamada inter­na­mente a organização.

Em out­ras palavras, a máfia sicil­iana, que virou Cosa Nos­tra nos EUA, envolve-se muito com obras públi­cas, lic­i­tações, con­cessões, e por con­se­qüên­cia pre­cisa dos políti­cos para apre­sentarem pro­je­tos leg­isla­tivos, incluírem nos orça­men­tos e pres­sion­arem para o paga­mento das obras, em sede exec­u­tiva de gov­erno. Con­vém frisar outra causa, não con­tem­plada por Saviano. Ao declarar guerra ao Estado ital­iano em 1992, a máfia foi obri­gada a sub­mer­gir em face da pesada repressão. Resul­tado: o lucro caiu.

Ao relatar o caso de Pasquale, Saviano acer­tou em cheio grandes grifes como Valentino, Ver­sace, Prada e Armani. Essas empre­sas des­fru­taram do esquema ile­gal, protegendo-se da respon­s­abil­i­dade crim­i­nal por meio do ridículo argu­mento do “ter­ce­i­rizei e basta”. Anota o jor­nal­ista, no par­tic­u­lar: “As grifes da moda ital­iana somente começaram a protes­tar con­tra o grande mer­cado pirata admin­istrado pelos clãs de Sec­ondigliano depois que a (Procu­rado­ria) Antimá­fia desco­briu todo o mecan­ismo de atuação”.

O silên­cio, até então, era explicável. Um dos motivos, com relação à ter­ce­i­riza­ção, segundo Saviano: “Denun­ciar o grande mer­cado sig­nifi­cava renun­ciar para sem­pre à mão-de-obra a baixo custo que uti­lizavam na Cam­pâ­nia e na Puglia. Os clãs teriam, em represália, fechado os canais de acesso às con­fecções que con­tro­lam no país e as do Leste Europeu e Oriente”.

Além disso, acres­centa Saviano, os clãs nunca aten­taram con­tra a boa imagem das con­fecções de alta-costura, uma vez que seus vesti­dos, sap­atos, bol­sas e out­ros acessórios sem­pre foram de altís­sima qual­i­dade. Mais ainda, “con­seguiam não fazer con­cor­rên­cia sim­bólica à grife, mas difun­diam, cada vez mais, pro­du­tos cujo preço de mer­cado era proibitivo ao grande público”.

Outro detalhe rel­e­vante. As con­fecções napoli­tanas colo­cavam à dis­posição peças con­trafeitas de tamanho extra large, cujas grifes famosas, por questão de imagem, não produzem.

Vis­itei duas vezes a pequena Casal di Principe, um vilarejo da região da Cam­pâ­nia, viz­inha a Caserta, com pouco mais de 20 mil habi­tantes. Lá estão enraiza­dos três fortes clãs da Camorra, coman­da­dos por Francesco Schi­avone (iden­ti­fi­cado em Gomorra ape­nas pelo apelido de San­dokan), Anto­nio Iovine e Michele Zagaria.

Pro­por­cional­mente, Casal di Principe é a cidade que tem em cir­cu­lação o maior número de automóveis da marca Mercedes-Benz. Todos sem­pre novos.

Pela cidade, é impos­sível, até para a polí­cia, obter rev­e­lações de onde se encon­tram os chefes da Camorra. Em setem­bro deste ano, na aber­tura do ano esco­lar, para uma solenidade em Casal di Principe, foram con­vi­da­dos o pres­i­dente da Câmara dos Dep­uta­dos, o comu­nista Fausto Bertinotti, e Saviano. As janelas das casas foram todas fechadas e a recepção a pior pos­sível. “Não são daqui”, dizia um líder estudantil.

Um dos poucos a se apre­sen­tar foi Nicola Schi­avone, 80 anos, pai de San­dokan. Espé­cie de porta-voz da orga­ni­za­ção do filho, Nicola, em con­versa comigo, abu­sou da expressão “Vaf­fan­culo” ao se referir aos detra­tores de Casal di Principe, a mostrar que não dis­tingue o municí­pio do clã do seu filho. “Aqui faze­mos nós e as empre­sas nos copiam. Elas é que fazem a pirataria”, disse, com con­vicção. Segundo ele, as fábri­cas do vilarejo pro­duzem a mel­hor con­fecção e todos (refer­ên­cia às grandes grifes) vêm atrás para fechar contratos.

No fundo, uma divisão de cul­pas, com ver­dades pela metade. As grifes ter­ce­i­rizam. Às vezes, até fornecem o tecido e o mod­elo. Pior, fin­gem não saber da infor­mal­i­dade das relações tra­bal­his­tas nas con­fecções do “Sistema”.

Mais, não se inter­es­sam pelos des­do­bra­men­tos. Exem­plo: são ter­ce­i­riza­dos mil vesti­dos e 500 bol­sas. Depois da entrega, mil­hões de vesti­dos e bol­sas, exata­mente iguais, saem de Casal di Principe para o mundo.

Nicola insiste: “Nós faze­mos. O sen­hor não acred­ita? Com­pre uma peça de grife e pague os tubos na Via dei Con­dotti em Roma. Traga a peça e con­cluirá que as lojas ven­dem, sem con­tar, o que faze­mos aqui. Os que falam o con­trário mentem. “Stronzi tutti (uns mer­das todos). Basta, eles nos copiam.”

A respeito, con­vém voltar ao livro de Saviano, que rev­ela como uma empresa legal se com­põe com os mil­hares de con­fecções do “sis­tema da Camorra”. Com fre­qüên­cia, descreve o autor, um staff de rep­re­sen­tantes das con­fecções famosas real­iza infor­mais leilões, em ter­ritórios con­tro­la­dos pela Camorra. Eles são real­iza­dos em esco­las, fora do horário das aulas e nos fins de sem­ana. Os oper­adores camor­ris­tas do mer­cado ile­gal com­pare­cem para dar lances.

O jor­nal­ista relata um caso ilus­tra­tivo. Uma rep­re­sen­tante de uma marca famosa escreveu o número 800 no quadro-negro da escola. Bas­tava isso para os par­tic­i­pantes saberem tratar-se da con­fecção de 800 vesti­dos. Ao lado do número, sep­a­ra­dos por hífen, out­ros dois, 20 e 25. Leitura com­pleta: 800 vesti­dos, por 20 euros e entrega em 25 dias.

O vence­dor da “lic­i­tação”, isto é seguro, cumprirá o com­pro­misso, sem­pre com peças de altís­sima qual­i­dade. Ele tem um exército de tra­bal­hadores espe­cial­iza­dos, que aceitam a infor­mal­i­dade e o baixo paga­mento, pois não con­seguem emprego reg­u­lar. Todos labu­tam no andar térreo do sobrado onde, como regra, o arrematante vive com a família, que ocupa o andar superior.

Como se percebe, a filosofia neolib­eral foi absorvida pela Camorra, que con­trola pro­du­tos con­trafeitos na China e já ten­tou ingres­sar no campo do agronegócio.

A asso­ci­ação crim­i­nosa man­tém um esquema no porto de Nápoles. Conta Saviano: “No porto opera o maior armador da China, que pos­sui a ter­ceira maior frota do mundo. E explora, como gestor pri­vado, o prin­ci­pal ter­mi­nal para con­têineres da cidade. E isso com a MSC, que pos­sui a segunda frota do mundo e sede em Gene­bra, na Suíça”.

Pelos lev­an­ta­men­tos do jor­nal­ista, no porto são desem­bar­cadas, quase exclu­si­va­mente, mer­cado­rias prove­nientes da China: 1,6 mil­hão de toneladas. Com apoio em doc­u­mento da agên­cia alfan­degária, Saviano rev­elou que 60% da mer­cado­ria desem­bar­cada foge ao con­t­role das autori­dades por­tuárias e 20% das guias não são con­feri­das ou con­têm dados falsos.

Para se ter idéia, exem­pli­fica no livro, o Serviço de Vig­ilân­cia e Com­bate à Fraude no porto, em abril de 2005, por mero acaso, apreen­deu 24 mil jeans des­ti­na­dos ao mer­cado francês, 51 mil obje­tos prove­nientes de Bangladesh mar­ca­dos com Made in Italy, 450 mil brin­que­dos e 46 mil jogos infan­tis de plás­tico. E tudo cópia perfeita.

A Camorra sem­pre cam­in­hou para se tornar uma orga­ni­za­ção inspi­rada nas teses sobre mer­ca­dos aber­tos, a despeito da miopia de um boss do porte de Tom­maso Buscetta, ou houve mudanças radicais?

Ao ser inter­ro­gado pelo juiz Gio­vanni Fal­cone, dina­mi­tado pela Cosa Nos­tra em maio de 1992, Buscetta fez impor­tantes rev­e­lações e mar­cantes con­fis­sões, estas últi­mas aceitas como ver­dadeiras pela Justiça ital­iana, pela coerên­cia e con­fir­mações dos fatos.

Inte­grante da ver­ti­cal­izada Cosa Nos­tra desde a ado­lescên­cia e apel­i­dado de “boss dos dois mun­dos”, pode-se con­cluir que Buscetta, casado com a brasileira Maria Cristina Guimarães, sabia tudo da sua orga­ni­za­ção, incluído o envolvi­mento de políti­cos, como Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro.

Buscetta foi o primeiro a desnudar a orga­ni­za­ção da máfia, com órgão de cúpula e vín­cu­los umbil­i­cais com a norte-americana, fun­dada em Nova York.
O sicil­iano Buscetta não con­hecia bem a rival Camorra. Ele, na ver­dade, desprezava a orga­ni­za­ção con­cor­rente e avali­ava que seus inte­grantes eram dile­tantes do crime. Por isso, em depoi­mento a Fal­cone, disse que não con­trataria um camor­rista para guarda noturno da sua residên­cia, pois, pela falta de profis­sion­al­ismo nata, ele dormiria no trabalho.

O certo é que Buscetta falava de out­ros tem­pos de Camorra, cujos clãs jamais aceitavam um órgão cen­tral de gov­erno, tipo o comando pela “Com­mis­sione” da Cosa Nostra.

A chamada Nova Camorra Orga­ni­zada (anos 80), uma con­trafação orga­ni­za­cional da máfia, com gov­erno cen­tral, não pas­sou de um sonho de Raf­faele Cutolo, preso em 1982. O mesmo se pode dizer da Nuova Famiglia di Camorra, ide­al­izada por Carmine Alfieri e Anto­nio Bardellino. Mas, a par­tir de 2004, os clãs Di Lauro e Con­tini inve­sti­ram pesada­mente na China — e desde então estabeleceram-se parce­rias que as autori­dades adu­aneiras e as poli­ci­ais não con­seguem contrastar.

O grupo de Buscetta, coman­dado pelo paler­mi­tano Ste­fano Bon­tade, perdeu a guerra de máfia para o grupo lid­er­ado por Totò Riina, da cidade de Cor­leone. Os cor­leone­ses mataram Bon­tade em 1981, quando Buscetta, Badala­menti e out­ros mafiosos de ponta já tin­ham fugido para o Brasil.

Um dos primeiros atos de Riina, o capo di tutti capi, foi esta­b­ele­cer aliança com a Camorra, em espe­cial no campo do trá­fico de dro­gas ilícitas.

Para o trá­fico, rev­ela Saviano, os clãs empregam os mil­hares de jovens des­ocu­pa­dos, recru­ta­dos nas per­ife­rias napoli­tanas de Sec­ondigliano e Scampia. Os men­ciona­dos jovens fazem entre­gas com moto­ci­cle­tas forneci­das pelos clãs. Per­cor­rem em veloci­dade as auto-estradas. Depois de muitas entre­gas, gan­ham a moto de pre­sente e real­izam “um grande sonho”, sem perce­ber que os capi lucraram muito mais.

Homem de pou­cas letras, mas com pro­funda intu­ição sobre o fun­ciona­mento do mer­cado finan­ceiro, Riina perce­beu ter a Camorra abraçado o neolib­er­al­ismo para colocá-lo em prática nas suas ativi­dades inter­nas e plan­etárias. Deve ter cansado de ver pelas ruas de Roma, Palermo, Flo­rença e Milão legiões de imi­grantes a vender bol­sas e reló­gios piratas.

Para se sobre­por aos chi­ne­ses na alta-costura, o Sis­tema esta­b­elece a regra dos pro­du­tos com alta qual­i­dade, nunca alcançada pelos chi­ne­ses. Apli­cam uma espé­cie de ISO (Inter­na­tional Orga­ni­za­tion for Stan­dard­iza­tion), tomada por emprés­timo a sigla desse organ­ismo mundial de padroniza­ção e normatização.

Ressalve-se que a ISO não aprova nor­mas no campo da eletrônica, onde a Camorra tam­bém atua pesada­mente em parce­ria com as tríades (máfias) chi­ne­sas. Pro­du­tos da alemã Bosch, por exem­plo, são piratea­dos às escâncaras.

Como lem­bra o velho Nicola Schi­avone: “Eles nos copiam. Gostam de vender nossa pro­dução no quadrilátero da moda de Milão, para end­in­heira­dos. Pagam uma mis­éria para os artesãos e para as con­fecções de Casal di Principe, Sec­ondigliano e out­ras cidades”.

Sobre o livro Gomorra, Nicola disse que gos­tou muito: “É um belo romance. Sim, um romance e não um relato jor­nalís­tico. O autor tem muita imag­i­nação para inven­tar coisas fan­tás­ti­cas. Que imag­i­nação incrível”.
Aviso aos incau­tos, seguida a lição de Nicola sobre pro­du­tos ver­dadeira­mente orig­i­nais. Para não errar e evi­tar fal­si­fi­cações, recomenda-se a longa relação de lojas encon­trada na página 51 do livro Gomorra. Boas com­pras de fim de ano.